Alhos Vedros

O Agrupamento de Escolas José Afonso – Alhos Vedros está situado na Vila de Alhos Vedros, deriva da palavra latina"Alius Vetus", que, evoluindo através dos tempos deu origem ao vocábulo velho e vedros, de significado idêntico. São várias as explicações para a atribuição do nome, porém não existe qualquer conclusão. Geograficamente,   a vila situa-se no Concelho da Moita, Distrito de Setúbal,   uma vila ribeirinha da margem sul, situada junto da Reserva Natural do Estuário do Tejo, na periferia da capital.

A sua História fez-se ao longo de séculos, tendo-lhe sido atribuído Foral no século XVI, mais precisamente no ano de 1514,   por El Rei D. Manuel e, até 1834, foi sua donatária a ordem de Santiago e Comenda. As suas raízes remontam a tempos pré-históricos, tendo  sofrido várias ocupações (romana, por AÚLIO CORNÉLIO PALMA no século II d. c.) e invasões visigóticas,   germânicas e muçulmanas.

Em 1514 Alhos Vedros incluía  várias aldeias: o Lavradio, o Barreiro, a Telha, Palhais, Moita, Quinta de Martim Afonso e Sarilhos Pequenos.

Alho Vedros orgulha-se de ter sido durante longa data um concelho importante, exercendo um poder forte sobre as terras vizinhas. A confirmar este dado podem observar-se os inúmeros vestígios históricos, ainda hoje presentes na zona. Como por exemplo:

O Pelourinho do século XVI, símbolo do poder que Alhos Vedros tinha sobre as terras limítrofes, como concelho que era.

O Campo da Forca, o actual bairro Gouveia, onde, segundo a tradição, eram executados pela forca os condenados à morte.

A cadeia, cujas ruínas se encontram visíveis na parte antiga da vila.

O Paço Real, situado junto ao cais da vila, local onde se refugiou o rei  D. João I para fugir à epidemia da peste, que assolava na altura a cidade de Lisboa, vitimando D. Filipa de Lencastre, sua mulher.

Aliada ao património da vila existe a tradição religiosa da população, implementada desde longa data e bem patente na Igreja Matriz, cuja fundação remonta a alguns séculos, desconhecendo-se a data da sua construção. Ainda hoje se celebra a festa anual dedicada à  Nossa Senhora dos Anjos, comprovando assim a crença e prática religiosas da população.   É uma capela de múltiplos estilos em que se misturam o Gótico, o Manuelino, o Renascentista, o Barroco e a cúpula mourisca.

Salienta-se ainda a Capela da Santa Casa da Misericórdia, construída em 1587 que está associada à necessidade do serviço religioso da população e o Poço Mourisco construído antes da fundação de Portugal, no tempo da dominação mourisca. A propósito são de realçar os relevos nas paredes exteriores, sobretudo uma cabaça, cuja lenda popular reza o seguinte:   quando algum rapaz ou rapariga conseguir partir a cabaça, nele esculpida, com a cabeça, dela sairá um tesouro imenso de moedas em ouro que o/a  tornará feliz para toda a vida.

Registam-se ainda outros vestígios, relacionados com actividades profissionais:
A actividade rural, vocacionada para a produção de produtos hortícolas e frutícolas,   visíveis ainda em alguns bairros da periferia, a actividade piscatória; a extracção e transporte de sal e sargaço  para Tróia (ainda hoje se podem ver algumas salinas, embora desactivadas), a moagem de cereais presente através do Moinho de Maré, do Moinho da Charroqueira e do Moinho Novo onde era feita a moagem de trigo e outros cereais. Produção de cal (Forno da Cal). A actividade corticeira também foi bastante importante na região, daí que se registem ainda algumas fábricas em funcionamento.
i da Vila de Alhos Vedros (1614)

(transcrição parcial do "Tombo da Vila de Alhos Vedros") 

“Está situada a Vila de Alhos Vedros em Ribatejo defronte da cidade de Lisboa entre o rio que vai para Aldeia Galega e o rio que vai para Coina, duas léguas e meia da dita cidade de Lisboa, no Arcebispado dela é da Comarca e corejção da Vila de Setúbal. É uma vila antiga, das mais antigas do Ribatejo. É povoação grande e no seu termo da parte de levante tem três povoações, a saber: Sarilhos o Pequeno, a Quinta de Martim Afonso e o lugar da Moita. E da parte do Poente tem cinco povoações, a saber: o Lavradio, a Verderena Grande, a Verderena Pequena, Palhais e a Telha.

O corpo da vila tem cento e quinze vizinhos, Sarilhos o Pequeno com a Moita e a Quinta tem cento e setenta e cinco vizinhos. O lugar do Lavradio tem noventa e oito vizinhos. O lugar de Palhais tem noventa e quatro vizinhos e o lugar da Telha com as Verderenas tem sessenta e dois vizinhos que são por todos, na vila e termo, 544 vizinhos.

Tem uma Igreja Matriz na vila, da invocação de São Lourenço, que tem um prior e um beneficiado curado e dois simpleces e um tesoureiro, que é leigo.

Em São Sebastião da Moita, no Lavradio e Palhais há clérigos do hábito de São Pedro que os moradores dos ditos lugares apresentam e pagam. E se tem dado em lembrança ao Procurador da Ordem para requerer sobre isso, de modo que não venha prejuízo à Ordem no padroado das igrejas que tem em suas terras.

Pertence esta vila à Ordem por estar situada nos termos velhos do castelo de Palmela que foi dado à Ordem com seus termos novos e velhos e com todo o direito real por El Rei D. Sancho I, no ano de 1224, como se vê da doação que vai neste tombo e assim é pertença do padroado das igrajas da dita vila e termo por doação de El Rei D. Sancho II, no ano de 1293.

Pertence à Ordem, nesta Vila de Alhos Vedros, toda a jurisdição cível e crime, mero e misto império por doação de El Rei D.Fernando que diante vai. E assim os oficiais todos da justiça, por esta doação, são dados e apresentados pelo Mestre de Santiago, e pelo rei que administra e governa o Mestrado.

Pertence mais à Ordem, na dita vila e termos, os dízimos dos vinhos, sal, pão, lenhas, pinhais, mel, enxames, gado, miudezas e de tudo o que Deus dá na dita vila e termos, e assim o dízimo do pescado que nos rios da dita vila e termos se mata. E nesta posse antiqíssima e imemorial está a Ordem ainda que até agora lhe traziam sonegado o dízimo das lenhas que tem por sentença a Ordem contra todo o Ribatejo.

E assim pertence mais à Ordem os foros das marinhas e dos moinhos e de alguns pinhais e vinhas e quintas.

O Cabido e Arcebispo de Lisboa levam o terço das dízimas da dita vila e termo, excepto das propriedades foreiras à Ordem, porque dessas é o dízimo todo in solidum da Ordem, sem nom entrar Arcebispo nem Cabido e por esse repeito não leva o Arcebispo e Cabido terço algum dos dízimos das marinhas e moinhos, porquanto todas são da Ordem e lhe fazem foro, que nas marinhas o se o é o dízimo do sal com a obrigação de o porem nas eiras e à sua custa dos possuidores das marinhas e a bom nado e assim de lhe fazerem as eiras para o dízimo e algumas outras fazem foros de galinhas e frangos. E antigamente todas as marinhas do Ribatejo pagavam o quinto à Ordem que o Mestre D. Jorge reduziu a dízimo de foro em lugar do quinto como consta de registos de aforamentos que estão no cartório do Convento de Palmela e ainda há algumas na Moita que pagam o quinto.

 

As freiras do Mosteiro der Santos da Ordem de Santiago levam todos os dízimos do sal das marinhas e dizem que por doação que têm do Mestre, a qual se lhes pediu neste tombo e não apresentaram. E está dado por lembrança ao Procurador da Ordem para aceitar pelos ditos dízimos que trazem, ou que mostrem título válido.

Nesta dita Vila de Alhos Vedros há um limite junto à vila cujos dízimos andam em apréstimos e são os apartados da comenda dos quais dois terços deles se anexaram à Comenda de Mouguellas no termo de Setúbal de que é Comendador João da Silva Tello de Menezes.

O outro terço destes dízimos anda em apréstimo anexo à Comenda da Espada de Elvas, de que é Comendador o Conde do Sabugal.

A dada das sesmarias petence nesta vila e termos à Ordem e seus oficiais, conforme a lei das sesmarias, e no salgado não se podem dar de sesmaria sem foro e sem licença do Mestre.

E assim se usa e pratia desde tempo imemorial e alguns forais da Ordem o declaram assim como é o Foral de Setúbal.

Na Câmara da dita vila se não pode fazer postura ou acordo algum que prejudique a Ordem e seus direitos, sem estar presente o Almoxarife da Ordem, e fazendo-se de outras maneira são nenhumas por doação que adiante vai.

A Vila do Barreiro antigamente foi termo desta vila e por esse respeito tem ainda hoje obrigação de virem todos à procissão dos Ramos nos Domingos de Ramos à dita vila de Alhos Vedros, onde se faz a dita ptocissão  no dito dia, solenemente, e são muito nomeados os Ramos de Alhos Vedros.

A confirmação dos juízes pertence na dita vila ao Mestre, e assim sempre se usou no tempo do Mestre D. Jorge e antes.

Do que tudo o Licenciado António Machado da Silva mandou fazer esta descrição para a Ordem por constar de todo o direito da Ordem. E assinou comigo Matheus d´Aguias, escrivão do cargo, que o escrevi e assinei hoje, 26 dias do mês de Outubro de 1614 anos.”


Notas:

  • Ribatejo não significa a Norte do Tejo, como hoje seria interpretado, mas sim "a montante" do rio.
  • Vizinho tem o sentido de agregado familiar, ou conjunto de pessoas vivendo numa casa.
  • Ordem é a Ordem de Santiago; Mestre é o Mestre da dita Ordem.
  • Tombo significa arquivo.
  • Termo significa a área abrangida pela circunscrição administrativa. "Alhos Vedros e termo" seria hoje escrito
    como: Alhos Vedros e seus limites administrativos.
  • D. Jorge - filho de D. João II, que fora Mestre da Ordem de Santiago.